OS PRETOS SEM-TERRA

Por: Aidan Dudu Labalãbã.

Este é o meu pseudônimo, o qual escolhi por não aceitar os nomes dados pelo escravizador. O meu nome pela língua imposta pelos brancos é Vanessa e sou membro da Igreja Presbiteriana Unida, em Salvador-Bahia e Tesoureira do CNNC/Bahia

O professor de sociologia, do colégio de Ensino Médio que estudo, comentou sobre os sem-terras e mostrou diversas fotos em slides as quais não apareceu nenhuma imagem de pessoas preta, achei estranho porque somos a maioria do povo brasileiro.

Meu pai foi a primeira pessoa que mapeou os quilombos do estado da Bahia, e começou este trabalho antes do meu nascimento, tenho eu agora 18 anos de idade, cresci ouvindo falar sobre as questões agrárias do povo preto e especialmente sobre quilombos e a não participação dos protestantes nessa questão. Até tratores passaram em Igreja da Assembléia de Deus dentro de quilombo, o meu pai escreveu sobre isso, e os protestantes nada disseram, e eu ainda pequena não entendia porque nada disseram e hoje eu sei que igreja formada só de preto não interessa aos poderes das igrejas que tem seus líderes todos brancos fora da nossa realidade.

Não temos imagens constantes de pretos e pretas no Movimento Sem-Terra, pelo menos os que aparecem na mídia, as nossas imagens são escassas, mas tenho a certeza que somos a maioria dos sem-terras nesse país. Na Bahia não se pode esconder esse fato.

O início do processo de expulsão das terras se deu especificamente após a chegada dos imigrantes brancos da Europa no projeto de branqueamento do país. Na abolição da escravatura, a população preta não estava nos planos agrários, tanto assim, que as minhas bisavós vieram do interior da Bahia. Sabemos que as pessoas migram porque não possuem terras em um país continental que não teve a coragem de fazer a reforma agrária, para beneficiar brancos sem-terras e pretos que nunca tiveram direito a posse dela.

Nas fotos apresentadas na sala de aula eu fiz algumas viagens para tentar imaginar só fotos de brancos. Eu sei que na época da escravidão houveram brancos sem-terras, e alguns fizeram acoitamento para escravos fugidos explorando a sua mão-de-obra, li isso no livro Bahia: Terra de Quilombos, escrito por meu pai quando ele escreveu sobre o Quilombo do Oitizeiro na Bahia.

Sempre ouvi do meu pai que temos de diferenciar os pretos sem-terras e os quilombolas, E AO MESMO TEMPO HÁ PRETOS SEM-TERRAS QUE FORAM QUILOMBOLAS, E HÁ PRETOS QUE ESTÃO SEM -TERRAS E NÃO FORAM PROVENIENTES DE COMUNIDADES DE QUILOMBOS. Eu só sei que sem importar muito as nomeações, o povo preto não tem terras e precisa lutar muito e serem cuidadosos para não perder as que possuem.

Os meios de comunicação não mostram os pretos sem-terras, o que aparece sempre são os pretos nas favelas, nas palafitas, nos meios urbanos, como se não estivéssemos na zona rural. É necessário mostrar a cara do Brasil Preto sem-terra, ao invés da mídia está sempre tentando esconder essa cruel realidade. Divulga-se um Brasil rico e branco, de farturas e com crescente produção agrícola que o nosso povo não tem participação nos seus lucros.

Fonte: BAYAH

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