Quilombo Rio dos Macacos e o protesto contra o racismo em São Paulo

Sustentada pela história que omite e ajuda a perpetuar práticas racistas, como se elas fossem para o bem do Brasil, um dos pedaços do militarismo, a Marinha, pressiona uma comunidade remanescente de quilombo a deixar o local que moram há mais de 200 anos. Enquanto um grito quer alcançar ressonância, outro, com a ligação entre as questões sociais, também quer falar o que acontece na cidade de São Paulo. A emergência do diálogo permanente entre os movimentos que estão reivindicando justiça está posto. Vamos escolher a guerra de egos ou o resgate daquilo que o Brasil mais possui de riqueza? 

O Quilombo Rio dos Macacos, encontra desde a década de setenta extremas dificuldades de sobrevivência por conta da truculência da Marinha na Baía de Aratu. Mas após outubro de 2010, perto da entrada do mês da Consciência Negra, a situação agravou-se.

A 10ª Vara Federal da Bahia determinou, por meio de liminar, a desocupação de 43 imóveis do quilombo. Mais ou menos um ano depois, porém, a área foi oficialmente declarada comunidade quilombola, com publicação no Diário Oficial da União em 4 de outubro, e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), do governo federal, solicitou que a Procuradoria Geral da União (PGU) intervisse no caso. O caso mobilizou mídias alternativas e ativistas sociais de diversos países.

Em meio aos moradores existe pessoas com mais de cem anos de idade, gente que nasceu no local e vive por lá antes da chegada da Marinha. Entre Salvador e Simões Filho, na Baía de Aratu, mais de cinquenta famílias moram no território. Segundo os membros da comunidade, eles estão ali há mais de 200 anos.

A violação dos Direitos Humanos feita pela Marinha do Brasil vai além de ameaças e agressões, ela é um desrespeito intenso à história brasileira.

Controlando inclusive o acesso à comunidade, dois fuzileiros ficavam de prontidão impedindo crianças, adolescentes e adultos de frequentar a escola. Há relatos, inclusive, de pessoas que tentaram resistir e foram espancadas publicamente, enquanto medida de intimidação para evitar qualquer mobilização comunitária.

A Vila Militar da Marinha foi construída por volta de 1971. Após esse período começou a perseguição ferrenha a essa comunidade negra, pressionando-os a deixar o local a qualquer custo. As famílias foram também proibidas de plantar, para dificultar a sobrevivência. Mesmo assim os moradores ainda resistem ao que acontece – ao longo de pouco mais de quarenta anos, mais de cinquenta famílias foram desalojadas.

Uma ação em sinergia dos Movimentos Sociais é necessária 

E ainda dá para ir além, sabendo que no Brasil, tanto em cidades grandes quanto em lugares mais afastados, a população mais pobre está sendo tirada à força de seus locais de moradia. O grito ecoa, famílias pedem socorro e a história se repete, demonstrando a herança de opressão ao povo negro, às comunidades indígenas e o genocídio que acontece nas periferias mais próximas ao asfalto. E a liberdade é cada vez mais rara.

Colocar esperança na mídia tradicional para denunciar a verdade, enquanto veículo de comunicação que pode dar ressonância a voz de quem está escondido, é perder tempo. Eles nada dirão, também fazem parte desse jogo de interesses. Nem precisa me perguntar como, apenas um breve olhar ilustra o quanto estão aliançados até o pescoço com os donos do dinheiro que povoam o mundo com seus interesses, mesmo sendo minoria populacional, fazendo com que povos tradicionais, repletos de riquezas históricas e culturais, mendiguem por um pedaço de terra que é deles por direito – a colonização apenas se renova. Enquanto movimentos sociais de respeito lutam pela Reforma Agrária, direito à moradia, qualquer conquista fica cada vez mais difícil.

Se faz cada vez mais emergente uma visão holística das lutas atuais que tem sido travadas no Brasil pela consolidação de direitos que são assegurados pela constituição. Alguns poderes parecem estar acima das leis constituídas. Ou pior ainda, acham que podem criar uma nova nação, tendo por trás de suas práticas conceitos fascistas, nazistas, racistas, discriminatórios, tentando ao máximo esconder o retrato brasileiro-africano-indígena, que ainda têm histórias para contar que desmantelaria de vez qualquer resto do mito da democracia racial, ainda existente e reforçado pelo discurso da elite quando questionada acerca da desigualdade racial e social que perdura durante séculos e ainda permanece forte nesse novo milênio.

O grito do protesto, organizado pelo Comitê contra o genocídio da Juventude Negra – feito num dos templos do racismo em São Paulo, Shopping Higienópolis – contra a política higienista que no ápice está, implantada pelo Governo de Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab, que desabitou moradores de Pinheirinho, de uma polícia, máquina de matança do Estado, que comete racismo na USP e assassina centenas de jovens pelas periferias, é também o grito que outros povos do Brasil estão dando. Em tempos que ainda temos de lidar com trabalho escravo, quem ainda duvida que a face mais cruel do sistema capitalista está posta?

Em uma constituição de metrópole que esteve e ainda está nas costas do povo negro. Não dá mais para aguentar tantas ações de brutalidade, gritemos todos juntos: “Por menos que conte a história. Não te esqueço meu povo. Se Palmares não vive mais. Faremos Palmares de novo!”

Fonte: JeanMello.Org

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