MV Bill, traficante de informações

Por Jean Mello

Visões sobre artista que canta contra a acomodação e é capaz de participar de programas de grande audiência mantendo-se crítico, contundente e rebelde

“Combatente não aceita. Comando de canalhas que a nós não respeita.
Excluído, iludido… Quem nasce na favela é visto como bandido! Rouba muito, magnata… Não vai para cadeia e usa terno e gravata. Causa e efeito… Só dever sem direito”. (MV Bill)

Raro nos dias atuais alguém conseguir desmistificar aspectos cruciais da situação que o Brasil vive, principalmente em pouco mais de cinco minutos. Nesse clipe lançado em abril de 2011, MV Bill incorporou questões extremamente relevantes para entendimento daquilo que realmente é o “País Tropical”.

Lógico que nada dá pra ver e dar um completo amém. Tampouco dizer que toda produção do cantor é tão madura quanto essa música.

Controvérsias à parte, conferir detalhes da obra que inspirou esse texto permite compreender melhor como se comporta um sistema cuja lógica inclui conservar as misérias e as desigualdades sociais. Também é um dos pedaços do quebra cabeça para montar o que muita gente espera que aconteça de vez por aqui: negros dizendo aquilo que apenas os negros viveram e ainda vivem.

Como diz o MV Bill, “a superação me emociona, mas a apatia dos irmãos me decepciona”. Para enfrentá-la, o artista volta a romper as fronteiras da pura crítica. Sua arte retoma e reinterpreta.

Acontecimentos que já afligiram as periferias de todas as metrópoles brasileiras. Desde as investidas da polícia, como braço do poder para disseminar o medo, até a falta de oportunidade aos jovens, sobrando poucas alternativas para levar a vida à frente.

Com imagens que lembram um fanzine ou história em quadrinhos, o som vai ilustrando aquilo que vemos. Ou será que é a imagem que diz exatamente o que ouvimos?

Em alguns momentos, MV Bill foi acusado de sensacionalismo e apologia ao crime. Recentemente, negou as investidas de vários canais de comunicação, segundo os quais teria espancado a irmã pauladas. Disse em nota oficial que sua familiar sofre de problemas psicológicos e que jamais cometeria tal ato.

Bate de frente com o que diz combater. No programa do Faustão, vídeo que está quase batendo na casa de dois milhões de visualizações, canta com fervor as contradições da grande mídia. Em dado momento foi cortado ao vivo, mas já tinha dado vários minutos de recados contundentes.

Alguns se perguntam se um rapper deve aceitar esse tipo de convite. Ele e alguns outros optaram por ir e dizer o que pensam. Os mais tradicionais não querem nem chegar perto. Recentemente, Emicida concedeu uma entrevista ao SBT que teve boa repercussão — só que nem sempre é assim que funciona.

Em outra oportunidade comento o que penso dessas inserções. Mas na maioria dos casos, a mídia do dinheiro pinta os saraus dos escritores marginais, as músicas das quebradas e outras formas de revoluções periféricas como se fosse algum artigo da moda. Omite a essência do que inspira as letras, documentários e livros.

A questão é que o “trampo” de Bill não consiste simplesmente em críticas. É um dos criadores da Central Única de Favelas – CUFA. Luta para continuidade de um trabalho sólido com crianças e adolescentes em situação de risco social e pessoal. A música passa a ser um meio e não um fim, para contribuir na formação de uma sociedade mais justa. Sim, MV Bill ainda é um traficante de informações, como ele mesmo gosta de ser chamado.

Fonte: JeanMello.Org

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