Sempre procurando sentido… De sistemas em sistemas… (Nova Versão)

Por Jean Mello

Desigualdades sociais recorrentes, enquanto sem esforço nenhum podemos ver na cidade de São Paulo tristes e grandes mansões, cercadas e guardando tesouros que se fossem  distribuídos com justiça anularia parte dessa realidade retratada acima, em muitas zonas periféricas. Quando vamos acordar em ver que em nosso tempo a sociedade grita por socorro?

Para viver é preciso ter coragem, ainda mais em um sistema como esse que foi instaurado nesse mundo. Quem pode negar isso?

Enquanto busco alguma inspiração para escrever essas breves palavras, alguma coisa com relação às escolas me vem à mente. Não apenas a escola institucional… Outras realidades podem ser levadas em conta.

Ao visitar escolas em alguns lugares da Grande São Paulo, e até mesmo do interior, ouvi coisas assombrosas de professores, diretores e alunos. Será que apenas eles sabem dessa verdade? Às vezes acho que outros sabem e se calam. Qual é a relação que as escolas têm com a comunidade no entorno? Ainda acredito na educação que olha o outro como legítimo outro, se ela for colocada em prática.

Um amigo que não sabe ler e nem escrever. A única coisa que sabe é desenhar – olhar para um desenho desse adolescente de dezesseis anos é ver um artista não conhecido, mas que poderia ter exposições nos principais museus do mundo inteiro. Quem reconhece o talento de alguém que mora na periferia e não teve ao menos a oportunidade de demonstrar o que sabe? De certo modo, às vezes agradeço, porque a verdade é que se mostrassem seriam roubados – alguém prometeria mundos e fundos, com a única intenção de roubar, para depois deixar pessoas mais frustradas que antes. Porém, outros ativistas culturais que o próprio sistema fez quando deu aos filhos de seus objetivos mais obscuros, os palácios da zona sul da capital e aos herdeiros do regime escravocrata os barracos de pau e os córregos, ainda de brinde a Polícia Militar para durante cada noite gerar terror quando insiste em perseguir trabalhadores e os chamar de vagabundos.

Depois ainda falam de Direitos Humanos. Qualquer ser humano deveria ter o direito, não cumprido, de compartilhar o que está apenas no plano sensível.

Sabe qual porta foi aberta para esse jovem artista? A do tráfico de drogas… Nem precisa de muito tempo para discorrer acerca disso… Parece que as histórias se repetem.

Vou citar o exemplo do documentário, Meninos do Tráficomas já cansei de ver isso na vida real. Crianças com cigarros na boca. Armas reais nas mãos de garotos que ainda nem conheceram o prazer da vida e em pouco tempo se deparam com a morte, seja ela de outras pessoas ou a dele mesmo. Meninos que não aguentam ficar em salas de aula, não apenas por terem de trabalhar mais cedo, e sim por não serem reconhecidos em suas particularidades.

Quais são os desejos, ilusórios, que as propagandas de televisão imputam nessas crianças?  Quer falar de Direitos Humanos? Então que acabe esse abuso de empurrar desejos na multidão que não podem ser satisfeitos, não pela falta de capacidade, conquistar algo, porque todos são capazes de alcançar, mas pela desigualdade social e pelos grandes valores que são dados a coisas que nada vale.

Um lugar que só tinha como atração o bar e o candomblé para se tomar a bênção. Lembra-se dessa frase de Mano Brown? Triste é saber que mesmo ela tendo sido dita há muitos anos atrás a realidade ainda não mudou completamente.

Talvez alguns avanços possam ser computados. Porém, olhando com cautela não poderemos ver muita coisa de fachada?

Para ser mais claro, sem meias palavras, quem adota é o tráfico, enquanto a escola vira as costas para centenas de pessoas que gostariam de acreditar em um mundo melhor.

Enquanto isso, famílias com muita frustração deixam de lado sonhos nos extremos da cidade e da solidão. Mas, quem olha para a angústia – escondida pelos sorrisos nos veículos midiáticos alienantes –  dentro das mansões ou dos carros blindados? Alguém pode acumular quanta riqueza puder, ou mesmo todo tipo de conhecimento. Porém, a verdade é que nada tem o poder de substituir os princípios mais humanos, àqueles que sabemos que nos coloca no caminho, em plenitude com o que almejamos. Existe aquilo que é palpável e o que não é concreto, abstrato. Em algumas situações dou mais valor para o que é abstrato, à própria experiência que surge aqui dentro, em olhar para o que passou ou o que está passando e poder vislumbrar as coisas mais simples me dá esse mar de certezas.

Um dia eu estava saindo de um emprego que eu muito gostava, mas não tinha o reconhecimento que achava necessário para fortalecer o prazer que todo ser humano deve sentir ao sair para ir trabalhar. Quando anunciei minha saída uma criança me olhou e perguntou se eu confiava em Deus. Respondi que sim… Ela com um lindo sorriso afirmou: então tudo está resolvido! O que me deixou surpreso é que ela nem sabia o que estava acontecendo por trás dos bastidores. Aliás, apesar de essa mesma criança ter uma vida muito sofrida, por estar em um lar que existe espancamento e até abuso sexual, ela não tem as complicações dos adultos. Adultos é que são complicados. Sábio foi quem disse que das crianças é o Reino dos Céus.

Enquanto isso, ao visitar um amigo na Zona Leste de São Paulo, percebo que ao passar pelas diversas estações de metrô e depois ter que pegar ainda mais um ônibus, em pleno horário de pico, ainda está viva a esperança mesmo em meio a uma situação tão humilhante para quem paga todos impostos, luta para colocar a comida na mesma e mesmo assim é tratado como lixo humano.

Esse olhar que acredita no presente e no futuro, mesmo tendo muitos motivos para não acreditar, também trás as marcas do sofrimento e das noites mal dormidas. Isso quando não tem seu lugar de moradia invadido por coisas não tão agradáveis: enchente, incêndio ou polícia. Mesmo com isso tudo ainda sobra o sorriso e a força para continuar a luta contra o mundo.

Uma vez, conversando com um professor meu, chegamos à conclusão de que globalização é um dos maiores crimes que a humanidade já viu. Já pensou por qual motivo estou dizendo isso? Muita mentira disfarçada de verdade… Muita gente querendo alcançar algo. Pessoas que até são honestas em seus desígnios e vontades pessoais – os caminhos são tantos e as possibilidades que nos são apresentadas são tantas que acabamos nos perdendo e esperando algo acontecer.

Devemos fazer o máximo para que as escolas, ou mesmo algum espaço na comunidade faça o máximo para que menos pessoas fiquem rendidas à poltrona no dia de domingo. Entende o que quero dizer?

Fonte: JeanMello.Org

Um pensamento sobre “Sempre procurando sentido… De sistemas em sistemas… (Nova Versão)

  1. Gostei do texto, porém, discordo no que tange a menção negativa feita à polícia. O problema é a política da polícia, e não os soldados em si. Acho que sugerir isso só vai incitar ainda mais a violência e representa um erro de alvo. Na pratica eles são como nós, meros cidadãos cumpridores de seu dever, tentando sobreviver no sistema, e sustentar suas famílias. A maioria dos policiais são pessoas de bem, as vezes cauterizados pelo sistema, as vezes cruéis por defesa própria, tendo em vista a violência que diariamente presenciam, mas ainda assim pessoas de bem. Não são eles o mal, o mal é o comando da PM, que segue o que o Governo delimita. E é a essa cúpula que nossa oposição deve estar destinada. Não podemos punir os trabalhadores, temos que fazer frente aos comandantes, ou do contrário, não teremos uma militância efetiva. Devemos, antes de tudo, reconhecer o verdadeiro inimigo, e só assim combatê-lo.

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