Famílias do Pinheirinho: destinos de quem luta

Documentário a ser financiado pelo Catarse vai narrar situação dos moradores despejados, resgatando solidariedade que persiste em meio ao precário e aos preconceitos

Por Bruna Bernacchio

Quase nove meses se passaram depois da truculenta desocupação de cerca de 6 mil pessoas do terreno do Pinheirinho, em São José dos Campos. Sem ter onde morar, as mais de 1,5 mil famílias foram para abrigos temporários, casas de amigos, cantos das igrejas etc. Dormem ao lado de desconhecidos, vivem em situação de pós-guerra.

Mas onde estão as famílias agora? Passada a agitação inicial, de denúncias e protestos“Somos todos Pinheirinho”, estimulada pela mídia alternativa e redes sociais, a poeira baixou e está quase toda levada pelo vento. Contra esta segunda tragédia — a do esquecimento — atuam os historiadores Lucas Lespier e José Rogério Beier. Eles trabalham há meses num documentário sobre o destino dos moradores despejados. Quando pronta, a obra revelará como é arriscado lutar contra os poderosos brasileiros fora do conforto da classe média. Mas também resgatará histórias raras de humanidade.

Lucas e José Rogério (mais conhecido por “Roger”) sensibilizaram-se pelo destino dos moradores logo após a brutalidade da desocupação. Eram passageiros frequentes das vans fretadas pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) para levar a São José dos Campos voluntários interessados em registrar os fatos. Roger fez anotações a respeito, em seu blog. Mas os dois queriam ir além disso.

Aos poucos, surgiu a ideia de fazer um documentário, “de guerrilha mesmo”, sem nenhum recurso, juntando forças de pessoas interessadas. Resumidamente, conta Lucas, o foco é mostrar o que aconteceu aos ex-moradores: “Dar voz às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem que seguem vivendo sem uma solução definitiva de moradia”.

Em junho, iniciaram as filmagens. Visitam a casa das pessoas, tentando conhecê-las mais a fundo; saber como foi a experiência pessoal de perder a casa, e como vem sendo o cotidiano desde então. Descobriram, por exemplo, que o “auxílio” prometido pelo governo do Estado às famílias limita-se a uma bolsa-aluguel de R$500 — irrisória, em especial diante da especulação imobiliária. Mas conheceram também o espírito de solidariedade, que persiste.

Por não conseguirem pagar o aluguel, muitas famílias juntaram-se a outras, em casas coletivas. Algumas nem ao menos receberam a bolsa e estão vivendo em condições de risco, ou “de favor”, alojados por amigos ou familiares.

Também assim passaram a enfrentar um quotidiano de preconceitos. Se dizem que são ex-moradores do Pinheirinho, fica muito mais difícil alugar. No posto de saúde, Marinalva teve dificuldades de ser atendida, e foi duro, para muitas mães, conseguir novas escolas para suas crianças.

Com muito sacríficio, um grupo menor de moradores está conseguindo complementar o valor do bolsa-aluguel e pagar outra casa. É o caso da senhora Carmen. Ela vive com uma pensão baixíssima e, com um neto para criar, “completava a renda e a mesa com uma horta que tinha no seu terreno”, diz Lucas. Ele conta também das “marcas óbvias” que a violência deixou: “Carmen tem problemas no joelho devido a uma queda durante a ação policial. Seu neto treme ao ver PMs e se esconde em baixo da cama quando ouve o som de helicópteros”.

É uma comunidade muito unida, e todos estão se ajudando pra continuar lutando. “É muito bonito ver como as pessoas de mais idade ficam felizes nas reuniões onde voltam a se encontrar, já que agora estão dispersos pela cidade”, conta Lucas. Não quiseram sair de São José porque ainda têm esperanças de reaver seus direitos. “Uma coisa fica clara ao conversar com os moradores: que mesmo se todos ganharem um apartamento, nada estará resolvido. Trata-se de uma comunidade quase rural com fortes relações com os vizinhos e a comunidade, e que passou por uma situação extremamente traumática”.

Além da história das famílias, o documentário abordará outro tema esquecido pela mídia: a tramitação, na Justiça, dos processos que examinam as ilegalidades da ação do governo paulista e definem o destino da área desocupada.

Para completar a obra, Lucas e Roger estão recorrendo a financiamento colaborativo, por meio do site Catarse. O projeto necessita de pouco — apenas R$ 11,2 mil. É possível participar com colaborações a partir de R$10. Os autores informam que o trabalho da equipe continuará não-remunerado: o valor captado será somente para financiar uma estrutura na produção melhor — financiando as viagens e outras demandas — e garantir a finalização do longa até janeiro, quando a desocupação completa um ano.

Fonte: Blog Coletivo Outras Palavras

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