O Autoritarismo e o Quilombo

Sabe com quem está falando? O autoritarismo e o Quilombo. Ou a TV, a Pesquisadora e o Quilombola… Aonde vão?

Membro da Comunidade Pedra do Sal, o Prof. Luiz Carlos Torres, Historiador de Formação e quilombola descendente desse território, no último dia 31 de outubro foi convidado a dar uma entrevista junto com a doutoranda em antropologia Flavia Costa, para o canal Brasil.

Eis que os dois escolheram como cenário para entrevista o espaço denominado Jardim Suspenso, que beira a Rua do Camerino e que foi em tempo colonial e do império brasileiro o principal mercado de escravos do Rio de Janeiro, denominado Valongo.

Quando já no espaço escolhido e com a equipe de reportagem pronta os dois professores convidados para a matéria viram surgir um sujeito sem identificação, se dizendo segurança do Consórcio Porto Novo e exigindo que eles saíssem daquele espaço porque pertencia a empresa. Indignados e pasmos ficaram!

A Jornalista Carmem Célia, da TV Brasil, que conduziria a matéria, se indignou de imediato com o sujeito e perguntou quem ele era, pois nem crachá ou uniforme usava.

O sujeito reforçou sua fala intitulando-se segurança do Consorcio Porto Novo. Além do despreparo no trato com o público, ele se mostrou arrogante e autoritário no vocabulário para com o grupo da reportagem.

Nosso historiador, Prof. Luiz Torres, não se conteve e solicitou que continuasse a matéria recomendando que se alguém os quisesse tirá-los dali que chamasse a polícia.

Quando o sujeito se deu conta de que sua descortesia e arrogância não surtiram efeito, telefonou para alguém que talvez fosse seu superior e se afastou por alguns instantes do grupo.

Não demorou muito. Apenas alguns poucos minutos depois e veio outro funcionário dizendo-se também do consórcio Porto Novo. O primeiro funcionário saiu à francesa e voltou logo depois, agora, sim, uniformizado e com crachá, quando veio uma terceira funcionária mais graduada e supostamente chefe do grupo.

Nosso historiador nos relatou também que o segundo funcionário que veio atendê-los, mais educado e fino no trato direto com eles, na sua fala inicial deixava, sem a arrogância do primeiro, que havia sim um monopólio da empresa privada sobre o local público que eles visitavam, quando disse que havia uma necessidade de comunicação ao Consorcio Porto Novo, que o outro dizia ser autorização.
Resumindo: O Projeto Porto Maravilha então não seria proposta de revitalização e reforma, como se diz do espaço urbano, mas de apropriação também dos espaços públicos de valor histórico e de memória?

Essa coisa de dar satisfação a uma empresa privada sobre o nosso direito de ir e vir e falar nos lugares que são expressões de nossas identidades, pela segunda vez nos indignou a todos. Como tirou nosso professor Quilombola do sério!

Nossa tradição quilombola, afrodescendente, que ininterruptamente há mais de um século percorre e vive pela região Portuária; desde o Tombamento da Pedra do Sal, na década de 80 do século passado, vem buscando uma recuperação de nossas raízes em ações afirmativas, de luta tendo por objeto nosso patrimônio negro da Região como o porto, o santo e o samba, argumento criado pelo Professor Luiz Torres e consagrado pelas acadêmicas da Universidade Federal Fluminense (UFF) Hebe Mattos, Martha Abreu e a Antropóloga Eliane Cantarino O’Dwyer, coordenadora do Relatório Histórico-Antropológico sobre o Quilombo Pedra do Sal escrito pelas duas Historiadoras.

O que nos incomodou não foi apenas o fato acontecido e narrado nesse documento que se apresenta como uma crítica ao comportamento arrogante de funcionários que representam o Consórcio Porto Novo no contato direto com o público. Outra questão digna de nota foi a imposição do Cais do Valongo como a mais singular e imponente matriz das tradições das raízes africanas de nossa Região Portuária na leitura do Projeto Porto Maravilha.

O Cais e o Mercado de Escravos do Valongo são hoje os ícones de maior visibilidade e importância para as tradições da cultura de matriz africana na Região Portuária por terem sido avolumados pelos interesses do surto arqueológico derivado das escavações dos logradouros públicos expostos a todos pelo projeto de urbanização atual. Foi necessário, inclusive, interromper as obras para levantamento rápido dos resquícios de quase três séculos encobertos pelos vários aterramentos pelos quais passou a nossa região portuária.

Como se fez a escolha desses equipamentos como ícones da memória africana pelo Porto Maravilha? Qual foi o critério?
Supervalorizar os espaços de registros do mal que nossos antepassados foram submetidos, será a melhor forma de lhe apresentar sua história? Ou não seria mais legítimo vê-los reconhecidos em seus espaços de celebrações em que as heranças ainda persistem vivas nas pessoas?

Não é de nossa intenção esconder ou descaracterizar a crueldade do mercado de escravo trazido para região portuária na segunda metade do século XVIII. Mas, uma vez que sempre existiu um espaço de celebração elevado a ícone por nossa mais legítima tradição, a Pedra do Sal, por que escondê-la, subvertê-la a espaço menor, dando ao espaço da tragédia o protagonismo?

Aproveitando esse momento de indignação e reflexão, a ARQPEDRA, como organização comunitária de descendência africana, expõe aqui a sua discordância com respeito à escolha que os pesquisadores, contratados para o Projeto Porto Maravilha do Poder público Municipal, postularam como referência e importância para o Mercado de Escravos e o Cais do Valongo.

O que de fato foi o cais do Valongo? Ele foi antes de tudo o espaço físico da crueldade e a calamidade de nossa condição humana depreciada a nada, sob o regime escravocrata colonial e imperial.

Então por que ele? Se já tínhamos um símbolo que existia e que traduzia não a tragédia dos nossos antepassados, mas sim o seu poder renovador criativo e de resistência: a Pedra do Sal (do Porto, do Santo e do Samba)!

A Pedra do Sal, nosso epicentro quilombola de todo território da “Pequena África” já tinha sido alçada a grande monumento de nossa memória desde o seu tombamento iniciado em 1984 e concluído em 1987, por iniciativa de muitos intelectuais, como o nosso celebre historiador Joel Rufino dos Santos.

Território de referência do ressurgimento de uma tradição quilombola local e centro aglutinador de todos os pretos e seus símbolos culturais que iam e viam entres os diversos núcleos desse território, inclusive o Morro da Providência, a Praça Onze e o Estácio.

A Pedra do Sal é monumento de celebração, de valorização de nossos ritos sagrados e do surgimento simbólico e real do samba carioca. Do encontro dos portuários da lida e da malandragem. Sua sorte é de símbolo das oferendas, do sagrado, quando o negro tinha que fazê-lo no silêncio de sua fé em orações de cânticos harmônicos e quase em sussurros ainda pelos idos do século XVIII.

A escolha do Projeto Porto Maravilha, através de seus pesquisadores pelo Cais do Valongo pelo Cemitério dos Pretos Novos (privado) pareceu ser uma escolha política e menos problemática que a Pedra do Sal. Aliás, na Pedra do Sal existem os quilombolas e uma rivalidade em que esses se viram envolvidos com uma potente ordem religiosa, que é a Venerável Ordem Terceira da Penitencia de identidade franciscana. Essa ordem religiosa não perdoou ao desqualificar, em 2007, os quilombolas quando esses exigiram permanecer em seu território. Atualmente, os quilombolas ainda estão à espera da titulação definitiva em razão dos impasses resultantes de interesses que permitem a VOT recorrer das decisões judiciais em que o governo brasileiro reconhece o território como sendo quilombola.

Talvez o progresso que essa intervenção urbana hoje capitaneada pelo governo da Cidade do Rio de Janeiro em nome das três esferas de poder (federal, estadual e municipal) e distribuída em muitos parceiros privados, em consórcios e outras formulações de cunho empresarial, prefira excluir os quilombolas do que negociar com seus representantes como permitia o ‘Acordo de Cooperação Federativo de 2009 (essência do Projeto Porto Maravilha), Costurado pela Casa Civil da Presidência da Republica, assinado e lavrado com a presença do então Presidente Luis Inácio “Lula” da Silva no Porto do Rio, onde os quilombolas da ARQPEDRA foram convidados. .

Pois bem, agora entendemos o segurança arrogante que tentou impedir o professor quilombola Luiz Torres, a pesquisadora Flavia Costa e a equipe da TV Brasil da jornalista Carmem Célia de circularem pelo território das identidades africanas que o Projeto Porto Maravilha apoiou o surgimento e que hoje monitora.

Tudo o que aqui relatamos deve ser deste modo interpretado ou estamos enganados quando nos afirmamos excluídos? Como a Pedra do Sal pode ser intitulada e reconhecida como sendo uma das peças das tradições das raízes africanas pela CEDURP, mas sem os quilombolas? Onde, no Site da CDURP, instituição que organiza, em nome do poder municipal, a herança africana, cabe a palavra quilombola quando fala sobre o território da Pedra do Sal?

Mais uma vez aguardando respostas, nos despedimos.

ARQPEDRA – Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Pedra do Sal

Enviada por Melisanda Bertolete Trentin.

Fonte: Combate ao Racismo Ambiental

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