O Racismo na Escola Bíblica Dominical

Por: Aidan Dudu Labalãbã
Este é o meu pseudônimo, o qual escolhi por não aceitar os nomes dados pelo escravizador. O meu nome pela língua imposta pelos brancos é Vanessa e sou membro da Igreja Presbiteriana Unida, em Salvador-Bahia e Tesoureira do CNNC/Bahia

Sou membro da Igreja Presbiteriana Unida de Valério Silva, um dos primeiros pastores pretos na Igreja Presbiteriana do Brasil, localizada em um bairro muito carente de Salvador. Sou professora da Escola Bíblica Dominical (EBD) na classe das crianças e há um bom tempo questiono o ensino aplicado.

As Igrejas Protestantes chegaram ao Brasil com o Protestantismo de Missões vindo do Sul dos EUA. Sabemos que até hoje existe segregação nos EUA em todas as estruturas da sociedade, com ações violentas e no passado teve grande influência da Ku Klux Klan, organização racista formada por brancos protestantes. Esses protestantes vieram ao Brasil, especialmente, durante o período da Guerra da Secessão (1861-1865), muitos fugindo e instalando-se trouxeram as suas práticas racistas para a vida da nossa população preta, a qual já era vitima do racismo católico.
Formaram uma igreja embranquecida, nos moldes excludentes de suas igrejas norte-americanas. Os quais os ensinamentos ainda são transmitidos por nossas lideranças em nossas igrejas, através da Teologia, dos hinários, cânticos, inclusive em grandes bandas e cantores evangélicos que possuem como fãs a comunidade preta evangélica.

E como esse conteúdo racista é repassado as nossas crianças? Bem simples. Através da reprodução sucessiva dessas práticas. Toda professora ou professor da EBD é escolhido pelo pastor. E o mais interessante às pessoas escolhidas são aquelas que aprenderam às lições racistas com nota dez! Tornando-se propagadores do racismo melhor do que os seus professores.

Como nos EUA os pretos contestavam essa pedagogia racista da igreja, foi possível a criação de uma teologia inclusiva nas comunidades afroamericanas, mas aqui não há nenhum tipo de contestação. Só há: Amém! Aleluia! Oh Glória! A cor do diabo é preta mesmo?! Então sua liderança não tem uma visão critica do problema, isso é ensinado livremente. Mesmo que esse ranço racista seja ensinado uma vez na semana em nossas igrejas, porém, ele já esteve presente os outros seis dias na escola formal e em todos os setores da sociedade. E chega ao domingo atingindo algo mais valioso na nossa existência que é nossa espiritualidade, nosso intimo e afetando e influenciando a auto-estima.

Os africanos e seus descendentes são o povo mais espiritual de todo mundo, e a temos em toda nossa vida.
Lembro-me quando pequena estava trocando de sala na EBD. Saindo da sala de seis e sete anos indo para de oito e nove anos. E minha primeira lição na classe foi: a cor dos corações que não tinham Yeshua, aqueles que estavam sendo lavados e os que já estavam prontinhos. Aí tinha lá três corações colados no quadro: um preto, um vermelho e um branquinho! E a professora disse: -Esse coração preto aqui é aquele onde vive ainda o ódio, a falta de obediência, o pecado.

Continuou:

– O vermelho é aquele já aceito a Yeshua e está sendo lavado pelo seu sangue, deixando de ser mau. E o branquinho aquele que Cristo já habitava e que já estava purificado.

Eu era pequena, mas minha família me deu base para que não absorver a lição. Pois sempre me explicou que Yeshua era preto e Diabo era da cor da estrela D´alva. Sempre meus pais compraram bonecas pretas e nunca me deixaram assistir esses programas infantis onde todas as apresentadoras são brancas, loiras como: Xuxa e entre outras. Isso aconteceu comigo tem mais ou menos uma década e é bem parecido com que a APEC passa. E a APEC já está ai há quanto tempo? Evangelizando as nossas criancinhas pretas com seus ensinamentos racistas na EBB ou fora. Acho que desde década de 30 com seu fundador, trabalhando com as crianças as cinco cores no seu livro sem palavras que são: verde, amarelo, branco, vermelho e preto. Designando significados a cada cor. Sendo o verde a nossa esperança de ir para o céu; a cor dourada é o céu; a cor branca é o nosso coração puro, e alvo; a cor vermelha é o sangue de Yeshua que nos purifica do pecado e a cor PRETA que é o pecado que nos levará para o inferno.

E ainda as suas paginas brancas e pretas, sendo tudo que é branco é bom e o que preto ruim. Possuem em sua coleção de materiais: canetas, réguas e em tudo isso mostrando que a cor preta é o pecado o inferno! Ultimamente a cor preta foi trocada pela cor cinza, para mim o pecado ficou multiétnico, por que a cor cinza é a mistura da branca com a cor preta. O qual também a letra da música foi modificada, o preto é colocado como o sujo e o branco alvo. Aqueles (as) que não conhecem a APEC não permitam que os seus pequeninos serem evangelizados dessa maneira:

“Meu coração era PRETO,
Mas Cristo aqui já entrou,
Com seu precioso sangue,
Tão BRANCO assim o tornou.
E diz em sua Palavra,
Que em ruas de ouro andarei,
Oh, dia feliz quando eu cri,
E a Vida Eterna eu ganhei.”

Então, agora estamos libertos dessa essência racista da APEC em nome de YESHUA PRETO!

Bem, então percebemos que essa EBD é uma escola com objetivo de embranquecimento ou branqueamento, pois leva as pessoas desde pequena à negação de sua origem, criando em nossas crianças o autopreconceito, a falta de amor consigo mesmas e com o nosso próximo. O machismo com as nossas meninas e meninos. O medo para com Deus que é ensinado como que maltrata e castiga! Não ama e nem cuida. Um Deus que parece mais um senhor de engenho, que leva para o tronco quando não faziam aquilo que mandavam.

Creio que a EDB precisa ser completamente reformulada começando pelas nossas lideranças que ainda nos seus seminários devem implementar a lei 10.639, para um maior e melhor estudo da origem cristã!
Precisamos urgentemente uma reformulação nos livros didáticos aplicados na EBD.

O CNNC está projetando novos livros e precisa de educadores (as) pretos para elaborar esses livros o mais rápido possível, pois nossas crianças não podem ser mais alienadas! Se você é educador (a) entre em contato com o CNNC. Estaremos promovendo um encontro de professores da EBD, para que possamos discutir com mais profundidade essa questão. Junte-se a nós!

E o mais importante: devemos fazer uma denuncia de racismo contra a APEC, pois isso não pode fica assim!
“Ensina o caminho que a criança deva andar e quando for grande não se desviará dele.”
Provérbios 22:6
Creio que devemos criar um caminho de igualdade e respeito pelo povo preto a partir da infância também nas Escolas Bíblicas Dominicais.Um pedido a todos os professores ou futuros professores da EBD: Vamos começar a ouvir nossas crianças e adolescentes, pois eles têm muito que dizer. Vamos deixar de sonhar e partir pro concreto para a realidade deles!
Fonte: BAYAH

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