Um som para além dos limites de cor, raça e cultura

No pequeno país de Botswana, Cyril Ndolo já criou acordes que vão do Rastah ao Jazz, do Kalanga à Bora Ngana. Mas sua vontade de música não acaba

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Sentado no sofá da recepção de um dos maiores jornais de Botswana está um homem de aproximadamente 40 anos, um pouco menos na identidade, um pouco mais na aparência. O seu look é o oposto ao de um rock star. Sapato de couro batido, calças amassadas e mãos e blusa manchadas com pingos de tinta branca, aparentemente fresca. Ao seu redor, um mundo está acontecendo e ele não parece estar presente, absorvido pelo som do violão que traz nos braços. Entram e saem jornalistas pela porta ao seu lado esquerdo, o telefone toca a cada cinco minutos, a recepcionista atende um casal de estrangeiros, o gerente da loja ao lado negocia preços de camisetas e o homem, que atende pelo nome Cyril Ndolo, continua a dedilhar as cordas com a concentração de quem está só no deserto.

Quase como todo mundo no país, Cyril cresceu em uma pequena vila e por causa dos estudos se mudou para a ‘cidade grande’, que no caso da pouco populosa Botswana significa algo em torno de 100 mil habitantes. Foi só então que, aos vinte e poucos anos, foi pego pela doença da música, arrumou um violão e decidiu aprender os pormenores da arte. Ele esclarece que começou sozinho sim, mas não aprendeu sozinho não, sabe? “Ninguém aprende sozinho. Você assiste aos outros tocando e vai imitando. Você aprende com os outros”, explica mostrando os primeiros sinais de modéstia enquanto ainda espera sentado ao sofá vermelho.

Chamado para a entrevista, ele termina a música que estava praticando ao mesmo tempo em que caminha para a sala de reuniões. E, assim que se ajeita na cadeira, volta a estudar o instrumento. Quando começa a contar sua história, a explicar o que toca e a descrever seu estilo, o quase anti-rock star parece tomar a forma de um Chico em um dia de descanso. Entre pausas musicais, o artista conta que começou a tocar violão ao estilo tradicional de Botswana com quatro cordas, mas depois mudou. Queria aprender o que não tinha por ali. Queria construir a ponte entre a música tradicional e o rock, mostrando que o estilo não é exclusivamente ocidental. Tocar violão não quer dizer não estar fazendo música africana, you see? Cyril é daqueles que fala com o instrumento e, com toda a calma e didática do mundo, segue explicando suas passagens: “Eu comecei assim, tuntunrun daí eu vou assim panrandan e passo para cádunrundun e mudo esse acorde para algo mais assim: tantan, entende?”.

Durante sua carreira, o artista perambulou por bandas, formou grupos, tocou com os melhores artistas do país, desenvolveu ritmos próprios e gravou alguns CDs, sempre no compasso underground. Passou do ritmo Rastah para o Jazz e do estilo Kalanga para a Bora Ngana. Sua vontade de música não acaba. Ele quer aprender, quer novas opiniões de todos para quem apresenta suas composições, quer toques, dicas, observações, detalhes. Ele tem fome de notas, de som, de ciência musical. E a modéstia chega a ser quase espirituosa quando alguém do calibre artístico de Cyril pergunta a quem vem e a quem vai se está fazendo do jeito certo.

Ainda com o violão no colo, ele conta que se inspira em músicos como Michael Jackson, Bob Marley, Jorge Benson e Jimmy Hendrix. Para ele, são pessoas que conseguiram produzir um som “além dos limites de cor, raça e cultura”. Em um tom que beira levemente o comovido, ele elucida: “Chineses escutam Bob Marley e gostam. Michael Jackson, não importa se você é branco ou negro, você vai gostar. São músicas que inspiram independente do seu background. A música tem que revolucionar. A música está no mundo para as pessoas e não para certos tipos de pessoa.”

O projeto de Cyril agora é viajar à Itália para mostrar sua melodia. Recentemente fez uma parceria com músicos italianos e em conjunto formaram o EqoAfrica, grupo dedicado a difundir a música africana pelo país mediterrâneo. O primeiro festival seria em outubro, mas, mesmo com o convite oficial dos artistas locais, o consulado italiano lhe negou o visto. O fato causou alvoroço nos jornais tswanas, que acusaram a instituição de racismo, mas o músico segue com sua inextricável calma e acredita que a burocracia não será novamente um problema para a sua ida ao próximo festival, em março.

Sua maior preocupação continua sendo o aprendizado – afinal, para o artista o melhor da música não está apenas no tocar, mas na criação em si. Cyril fala sobre estilos, como desenvolvê-los, defini-los e entendê-los: “Levei anos para aprender o que eu sei agora – distinguir escalas, dominar a teoria e colocar tudo isso junto do jeito certo, tentando desenvolver um som em que seja possível identificar a África melhor, tentando delinear a música africana como um todo e tracejar o conceito que as pessoas no estrangeiro têm de nós em África”, ilustra o músico cujas mãos de pingos brancos não pararam por um segundo de estudar as cordas e que, mesmo depois de duas horas de entrevista, ainda parece ter o deserto todo para si.

Para entrar em contato com Cyril Ndolo: eqoafricacyril@gmail.com

Fonte: Blog Coletivo Outras Palavras

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