A Vênus Negra, a “mulata exportação” e o corpo da mulher negra na sociedade do espetáculo

Por Paula Libence

carnaval

Recebi de presente o filme “Vênus Negra” de um amigo, já no finalzinho do ano passado. À primeira vista não sabia nem do que se tratava a obra, e o título também não me sugeria nenhuma ideia. Resolvi assisti-lo, pois só assim teria minhas dúvidas sanadas. Confesso que logo nas primeiras cenas, não sabia o porquê de estar apreciando aquilo, e logo entenderão o motivo. Pensei em desligar o computador e fazer algo mais interessante, mas ainda assim hesitei e resolvi seguir assistindo-o. Julguei necessário para entender algumas coisas que, fora de contexto, parecem não fazer nenhum sentido.

Vênus Negra retrata a história da sul-africanaSaartjie Baartman, ambientada na Europa do século XIX. Saartjie foi uma mulher negra que trabalhava como doméstica na fazenda de Hendrick Cezar, seu então dono.

Saartjie foi levada à Europa com a finalidade de se apresentar em espetáculos circenses como uma selvagem que fora capturada na Cidade do Cabo. E como selvagem a ser exibida na Europa cosmopolita da época, tudo tinha de parecer o que temos ainda hoje como “exótico”, “diferente”, “exacerbado”. Como detinha de formas corporais bastante robustas, e as nádegas muito proeminentes, o que era aspecto bastante explorado nas apresentações, e bastante reforçado, pois seu dono a obrigava a comer muito para engordar e compor o personagem que representava. Saartjie usava roupas coladas ao corpo a fim de que ficasse “exoticamente” delineado e atraísse o público. Nos espetáculos, ela ficava dentro de uma jaula, não falava o idioma do local, e era exibida como a “Vênus Hotentote” (ver significado de Hotentote aqui).

Além de ser exibida como a selvagem, tinha de se jogar em cima do público com atitudes violentas, com a pretensão de atacá-lo, afinal de contas, ela era uma africana no meio dos europeus em pleno século XIX. Nada mais justo do que ver uma selvagem, brutalizada e sem a menor noção de civilização. Até porque a ideia do africano selvagem era usada para justificar o avanço colonial europeu sobre o continente africano no século XIX. Os europeus eram os “superiores” que tinham a missão de levar as luzes da civilização que viviam nas trevas do paganismo e do obscurantismo.

Tratada como escrava nas apresentações, Saartjie chamou não só a atenção do público que a apreciava, bem como da corte local, que a levou ao tribunal com o propósito de que esclarecesse a relação estabelecida entre esta e seu dono Hendrick Cezar, tendo em vista as acusações que este último sofrera por tratá-la como escrava.

Uma pessoa que fica presa a uma espécie de coleira, presa numa jaula, obedece tão e unicamente suas ordens, na visão mais grotesca que se possa ter não passa de um animal domado ou coisa do tipo. Era o que a relação escravista da época permitia associá-la.

O “causo” não foi adiante, pois, treinada e ameaçada pelo seu dono, ela desmentira qualquer relação escravista existente. Afirmou apenas que era uma artista e tinha ido à Inglaterra fazer espetáculos a convite de Hendrick. Caso passado e esquecido. Mas não para por aí, os eventos ganharam mais notoriedade. Outras relações de sociedade foram estabelecidas e Saartjie fora vendida a outro dono, domador de animais, que, de modo mais agressivo, a tratava como escrava, e via nela a oportunidade de enriquecimento fácil e a submetia não só aos espetáculos circenses e grotescos que fazia, ele organizava os “shows” fechados para alta sociedade em Paris, onde os convidados não só a tocavam, como a exploravam quase que sexualmente. Ou seja, em nenhum momento até aqui ela fora tratada como pessoa, que tivesse vontade própria e autonomia sobre seu corpo para decidir o que seria feito sobre ele. O francês levou Saartjie a Paris para exibi-la como selvagem na corte francesa, mas, como ela passou a não mais aceitar isso e não fazer o que se esperava que ela fizesse nas apresentações, ele a abandonou na rua e ela, sem ter para onde ir, resolveu prostituir-se para sobreviver.

Mais adiante, anatomistas se interessaram por Saartjie, pois estudavam “seres” com formas e aspectos fisionômicos diferenciados à época. Suas formas foram apreciadas e analisadas por médicos e cientistas franceses, liderados por Georges Cuvier. Torna-se então objeto de curiosidade. Vale lembrar que a medicina foi parceira do projeto colonialista europeu ao usar a legitimidade acadêmica para criar e divulgar a ideia de que as africanas traziam as marcas da “inferioridade” no corpo e especialmente nas suas feições fisionômicas.

Toda sua trajetória de vida fora de exploração e uso do seu corpo. Seja para espetáculo, se é que se pode chamar o que fazia de espetáculo, e os abusos sexuais que sofrera até o fim da vida, quando fora detectada com uma doença infecciosa que a levou à morte, e não se sabe o que de fato levou a óbito.  Seja de base de estudo na tentativa de comparar suas formas, a de uma mulher negra Hotentote, ao de um macaco, que veementemente o filme reproduziu.

E ainda depois de morta, foi de grande valia ao domador de animais, que a vendeu aos anatomistas da Escola Real de Medicina de Paris, que medicamente, mas eu diria, fria e brutalmente, desmantelaram-na, antes de fazer uma estátua do seu corpo, a fim de que fosse exibida e posteriormente estudada na própria instituição. Partes de seu corpo foram extraídas, analisadas e apreciadas por estudiosos do período. (O domador de animais vendeu o corpo de Saartjie aos anatomistas para não ter de arcar com as despesas do enterro dela. Como os médicos já estavam interessados em estudar o corpo da moça ainda quando ela estava viva, eles não perderam a chance de explorar o corpo dela depois de morta).

Depois de assistir a Vênus Negra, mergulhei num tremendo contrassenso, pois não consegui entender a relação do título com a película. Já que Vênus é a deusa do erotismo, da beleza e do amor e o filme não denotou nenhum desses aspectos. Em nenhum momento fora assemelhado à deusa da beleza com o desenrolar da obra, tendo em vista que a personagem não teve sua beleza exaltada. O que fora feito foi apenas a exotização do seu corpo, que deveria ser tocado para obter a confirmação de que tudo lhe parecia real diante de uma sociedade que desconhecia aquelas formas, por lhe parecerem extravagantes e impróprias ao corpo de uma mulher europeia, e por si só não cabia nos moldes da época.

Eu poderia dizer que uma dose de racismo, sexismo e machismo ilustrou a película, talvez sim, talvez não. Até porque sustentar esse discurso sem embasá-lo seria de todo desnecessário e não é a isso que me proponho, bem como não pretendo fazer uma resenha fílmica. Mas o que quero entender, muito mais do que esclarecer, é a relação da sociedade científica com Saartjie. Aqui, eu julgo necessário citar o racismo científico presente naquela época, ao afirmar que esta detinha de características semelhantes à de um primata. A obra firmou isso de modo bastante contundente, no momento da medição de seu corpo, e das comparações feitas à espécie animal em questão. E fatos como este não aconteceram por acaso. Não foi um mero recorte que o filme se propôs a fazer sem nenhuma pretensão. Raimundo Nina Rodrigues ao final do século XIX, influenciado pelos estudos de Cesare Lombroso e pelo médico francês, Arthur de Gobineau, que escreveu um livro intitulado Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, também defendia os ideais de raça. Ele acreditava e defendia piamente que negros detinham formas cerebrais diferenciadas dos brancos, e que aqueles tinham extrema propensão ao crime.

Num momento mais recente, Antonio Natalino Dantas afirmou que “baiano só toca berimbau porque tem uma corda só, caso tivesse duas ou mais não o saberia tocar”. Há quem diga que ele falou de baiano, não de preto. Neste caso, eu respondo. Quem toca berimbau na Bahia é preto, tão logo, sua ofensa tem um direcionamento étnico, epistemologicamente falando.

Eu diria que diversas Saartjies estão presentes no nosso cotidiano, pois é possível notar que as passistas de escola de samba, por exemplo, e guardadas as devidas proporções, são apresentadas com a mesma finalidade que Saartjie era apresentada no século XIX: para divertir o público e levá-lo ao delírio ao apreciar o aspecto selvagem da mulher que assusta o público ao mesmo tempo que deixa todos os presentes extasiados e loucos de desejo. A ênfase à passista da escola de samba, aqui, não é por acaso, pois esse é o espectro demulher brasileira vendida pelas agências de turismo e entretenimento de todo o mundo, inclusive brasileiras. A mulher fácil, boa de sexo, fervorosa na cama. A mulata do bundão, gostosona, que tem e faz algo a mais no sexo, é caliente, e está sempre disposta a realizar todos os seus impulsos mais animalescos e instintos mais sacanas.

E por que não falar da exotização da mulher negra? Na cena em que Saartjie se apresenta ao púbico parisiense, num momento em que tem de se fazer inofensiva e deixar o público tocá-la, as mulheres que a apreciam querem senti-la. Tocar sua pele, e sentir a textura do seu cabelo. É uma das cenas mais estarrecedoras, pois o que vi, é parte do que muitas mulheres negras passam ao tentar assumir sua identidade usando seu cabelo natural.  A textura e a forma do cabelo são aspectos que provocam espanto na aparência de outrem, tendo em vista que se torna bela, diferente e exótica.

Mais uma vez, não posso deixar de opinar sobre a rejeição a essas terminologias, pois sei o significado subentendido que representa quando se faz referência à mulher negra quando se afirma que ostenta uma “beleza exótica”.

Cabe aqui também um adendo a respeito do turismo étnico. Sim. Vênus Negra abre espaço para que se aborde a respeito da novidade do momento, pois no decorrer do filme, ingleses e parisienses querem conhecer a besta fera que veio da África (e muitos europeus, justamente após terem vistos espetáculos como esses em seus países de origem, foram ao continente africano a fim de conhecer de onde vieram e como viviam esses seres “fantásticos”, “maravilhosos”, “pitorescos” e “assustadores”). Tudo que é exótico e diferente provoca sensações diversas. Todos querem contemplar.

Daí surgem as conotações para o turismo étnico no Brasil, ideia que vem sendo defendida com a finalidade de ser implementada, ou melhor, já foi implementada. As visitas aos safáris africanos, onde há desde animais selvagens até as tribos isoladas do mundo e que não tem nenhum contato com humanos civilizados, vem sendo praticado aqui no Brasil também. E a mídia tem dado um reforço esplêndido. As empresas de turismo, inclusive, já vendem até pacotes de viagem com hospedagem nas favelas para que os turistas possam conhecer e apreciar o dia a dia de selvagens brasileiros que habitam morros e favelas no país. Saber como eles vivem, comem, trabalham, se comportam. Tudo digno de muito espetáculo, é claro.

Diante de tudo isso, ainda dizem que os tempos são outros. Não vejo diferença alguma do que fora visto em Vênus Negra e do que vivemos nos tempos modernos. Assistam e tirem vossas conclusões.

Fonte: Escrevivência

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