Malama Katulwende, romancista da diáspora africana

Escritor

Principal escritor contemporâneo do Zâmbia conta por que optou por não deixar África, expõe consequências da fuga de cérebros e fala sobre seu processo criativo particular

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Sucesso de público e estudado no mundo, o escritor Malama Katulwende é o principal destaque da literatura contemporânea na Zâmbia. Em conversa emocionante com o Afreaka, o autor conta sobre a sua relação com o trabalho e fala das dificuldades emocionais do processo de criação de um artista. Katulwende, que já havia lançado uma coleção de poesias, desabrochou para o mundo com livro Bitterness, aclamado romance que em português significa amargura. Um sentimento que misturado com refinado perfeccionismo traduz a angústia do escritor para com o mundo da arte e para com o seu mundo interno.

A sua revelação aconteceu com o romance Bitterness, que até hoje é também o livro que mais se destaca em termos de público. Como autor, o que você enxerga de particular sobre essa obra?
Se você quer saber, Bitterness é uma crítica política, cultural e social sobre o porquê alguns jovens zambianos, especialmente os universitários, estão deixando o país para ir trabalhar no exterior. É uma obra que também contrasta as tradições e os tipos de dores que essas pessoas passam. Eu acho que a temática atrai os jovens, eles se identificam. O livro é uma história de um adolescente do norte da Zâmbia muito inteligente, que consegue entrar na principal universidade do país e por isso é cercado pelas expectativas da sua família que espera que, quando formado, o jovem a sustentará. Mas por causa do colapso da economia, isso não acontece e todos se desapontam. Tanto a pressão econômica como a social o forçam a deixar o país. O livro basicamente é uma discussão que procura entender a dinâmica social que vivem os graduados aqui, pessoas que acabam indo para fora para compensar essa frustração e para procurar pastos mais verdes.

130506-BitternessE por que Bitterness?
Bitterness é algo que é desagradável, é algo que você não quer engolir, não é doce. Eu acho que as pessoas não deveriam partir. Eu acho que as pessoas deveriam fazer o seu melhor para conseguir ficar no país e mudar as circunstâncias, porque não tem ninguém que vai fazer isso por eles. Se eu quisesse, por exemplo, eu poderia estar vivendo na Europa ou em Nova Iorque, mas eu escolhi não fazê-lo. Não porque eu não posso, mas porque eu quero fazer diferença no meu país, solucionando os problemas que existem aqui. Uma maneira de fazer isso é montar o seu próprio negócio ou montar uma organização. Eu comecei a minha empresa com duas pessoas e agora estou empregando 10. E acredito que pago bem, acima do padrão. E acho que isso dá esperanças aos jovens. Poder ver um futuro aqui. As coisas são difíceis, mas a vida é assim. Você confronta os desafios que te encaram na vida real para que você possa deixar um legado.

Como você se coloca dentro do livro?
Bitterness é uma expressão do meu desprazer de como as coisas se encontram. Quando a principal personagem do livro decide partir, eu coloco isso como uma situação de tragédia. Ele advogava por ficar e fazer tudo que podia dentro da economia local, mas por causa das forças das circunstâncias, é compelido a partir. E eu quero que os leitores entendam sua dor e sintam o contraste entre as palavras de alguém e o que esse alguém eventualmente se torna.

Na sua carreira encontramos diferentes tipos de publicações, desde poesias até artigos científicos e romances épicos. Qual você definiria o seu estilo?
A minha narrativa é um mix. Algumas vezes sou poético, como em Bitterness, principalmente quando estou expressando algo no sentido tradicional, porque poesia é mais próxima às conformações rurais. Também uso poesia quando estou tentando expressar uma cena romântica. Mas o livro ao mesmo traz um estilo acadêmico quando estou falando da universidade da Zâmbia. E outros estilos em outros momentos.

Você mistura estilos no mesmo livro?
Sim, isso. De acordo com o que o contexto pede. Uma das críticas que recebi com o livro foi que ele é extremamente rico em termos de estilização. Bom, eu levei sete anos para escrevê-lo. Eu escrevia, deixava de lado, escrevia novamente. O meu novo livro No Other Land é essencialmente sobre como eu me descobri como artista.

Você está falando do processo criativo?
Sim, porque esse é um processo que pode ser excitante, mas também assustador. Eu quase tive um colapso nervoso quando descobri que podia escrever, ou melhor, quando decidi que ia escrever profissionalmente. Eu tinha medo. Era como viver em um mundo escuro. Eu senti um peso enorme sobre mim, e eu queria fugir. E fugi. Tentava dizer para mim mesmo que não queria escrever, porque existe uma dor ao fazê-lo, mas daí você se dá conta de que a vida sem isso não te satisfaz. Eventualmente eu tive que aceitar que era um autor, e teria que viver com isso. Por isso, tive que fazer muitos sacrifícios. A estrada que escolhi é tortuosa. É muito doloroso ser um artista.

E quais foram as consequências de ter rumado por essa estrada?
Eu perdi a minha juventude, eu passei a maior parte do meu tempo estudando e lendo sobre como escrever, quando provavelmente eu deveria estar saindo com uma namorada, bebendo uma cerveja, indo a uma festa dançar. Eu nunca tive essas experiências. Você sente que a sua personalidade está tunada entre a arte e o mundo, e você tem que fazer uma escolha entre os dois. O intelecto de um homem é forçado a escolher entre a perfeição da vida ou a do trabalho. Eu escolhi o trabalho.

Você mencionou a dificuldade emocional do processo criativo de um artista. Como foi esse percurso com Bitterness, que levou sete anos para ser escrito?
Quando eu comecei a escrever Bitterness, eu tentava jogar tudo fora. Eu tentava me iludir que a escrita podia ir embora. Quando você é artista, sente essa responsabilidade gigantesca no ombro, que te pesa o tempo todo. Seus pensamentos são exclusivamente sobre escrever, escrever, escrever. E você se pergunta, mas porque eu me sinto assim? Por que eu não posso pensar que nem as pessoas que não têm regras sobre si mesmas? Mas eu escolhi uma vida rígida, uma vida de regras. Eu preciso sentar-me à mesa, estudar. Eu preciso de silêncio ao meu redor. Quando estava escrevendoBitterness, decidi viver no mato. Longe de qualquer cidade ou qualquer vilarejo. Algumas vezes eu chegava a ficava completamente sozinho por 30 ou 40 dias. Eu queria expressar esse tipo de experiência no meu livro sobre o que significa ser um artista e o porquê de ser uma artista.

O que mudou com o isolamento?
As experiências me fizeram entender muitas coisas. Eu nunca tinha tido tanta intimidade, por exemplo, com o fogo. Eu vivia no mato, tinha uma cabana e ficava lá sozinho escrevendo, explorando a natureza, pesquisando. E quando olhava para o fogo com suas flamas explodindo me despertava o senso de beleza estética, que é difícil de explicar. Quando eu olhava para as bolhas de água, sentia uma mágica naquilo. Eu olhava para as árvores, para a grama, para as folhas das plantas, para a natureza tudo tão de perto. A minha consciência de autor transcendeu o meio ambiente. Quando você vive na cidade, ou em um lugar com tantas pessoas, sua sensibilidade, como autor ou como pensador, para sentir ou os sons musicais dos pássaros ou o assobiar do vento e todas essas cadências é duvidosa. É só quando você está sozinho que você consegue entender o que tem dentro de você.

Um pensamento sobre “Malama Katulwende, romancista da diáspora africana

  1. Pingback: Malama Katulwende, romancista da diáspora africana | Africas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s