Aspectos Históricos sobre o Racismo

Por Jean Mello

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Não caçamos os pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilâmine de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.

Nelson Rodrigues

Somos o segundo país do mundo em número de negros, ficando apenas atrás da Nigéria, demonstra o Portal Raízes. Isso não quer dizer que temos políticas eficazes direcionadas para um povo que tão mal tratado foi durante a história e, ao mesmo tempo, tão representativo é em nossa cultura.

Segundo o Portal Brasil, os afrodescendentes constituem 51,1% da população brasileira; em 2009, 6,9% das pessoas informaram ser pretas e 44,2% de autodeclararam pardas, o que representa 51,1% dos brasileiros. Números significativos ao levarmos em conta o fato de que as pessoas estão se declarando negras ou pardas, mesmo com uma imagem tão estereotipada do negro nos livros didáticos, na mídia tradicional ou nas redes sociais. Ou seja, inúmeros são os motivos para as pessoas não desejarem serem vistas como negras, descendentes de africanos.

Um salto para um dos acontecimentos em que o racismo mais se evidenciou na história: os tráficos negreiros.

Corro o risco de ouvir argumentos de que a “escravatura foi uma prática de todas as sociedades humanas num ou outro momento da história”, como nos informa a escritora e historiadora Elikia M´Bokolo, em seu livro África Negra: Histórias e Civilizações. Certamente, sabemos que sim. Mas, ao mesmo tempo, a escritora complementa dizendo que “nenhum continente conheceu, durante um período tão longo (séculos VII – XIX), uma sangria tão contínua e tão sistemática como o continente africano”.

Sempre depois de alguma afirmação que acentua a crueldade a que negros e negras do continente africano foram submetidos, vem a clássica pergunta: os próprios negros entraram em acordo comercial com os europeus, a culpa não é dos próprios africanos? Responda você mesmo… Será que cairemos mais uma vez na armadilha de culpar os oprimidos?

Referências para remontarmos os fatores históricos não falta. Mais interessante é olhar para materiais que façam a relação do passado com o presente que hoje vivemos. Um deles, que não me canso de ver é Quanto Vale ou é por Quilo? Trata-se de uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. Sabemos, vemos e nada falamos.

Outro material que conheço para pesquisadores que desejam olhar para um passado descrito de maneira contraditória, das particularidades dos ascendentes do continente africano, é O Racismo Explicado aos Meus Filhos, livro escrito por Nei Lopes. Simplicidade na linguagem e densidade na mensagem. Uma história envolvente que nasceu da necessidade urgente de um casal que precisava explicar aos seus filhos, sem os desanimarem, os motivos pelos quais eram tratados de modo diferente no ambiente escolar e na sociedade, de um modo mais amplo.

Como poderia deixar de lado a referência mais significativa, que há pouco tempo atrás foi traduzida para o português? A Coleção Geral da História da África você pode baixar gratuitamente pelo site da UNESCO.

A tradução se deu por conta das parcerias entre a Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas (UNESCO), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (Secad/MEC), sabendo que também essa já era uma demanda solicitada por parte do Movimento Negro no Brasil e outros Movimentos de Libertação em países africanos. A edição em português veio quase trinta anos depois da publicação original. Editada pela UNESCO, entre as décadas de 80 e 90, os volumes foram sendo disponibilizados em diversos idiomas: inglês, francês, chinês e árabe.

Com o envolvimento de mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento (jornalismo, antropologia, história, arqueologia, física, linguística, botânica, história, entre outros), sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais – um deles de nacionalidade brasileira, Fernando Mourão –, dos quais dois terços eram africanos, o conteúdo permite outras perspectivas, ou mesmo novos olhares, sendo base para obtenção de novas pesquisas e estudos acerca da África, para disseminação dos saberes no sistema de ensino brasileiro – contribuindo na implementação da lei 10.639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), tornando obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira – e em outros países de língua portuguesa.

Abordando assuntos que vão desde a pré-história até a década de 1980, em mais de oito mil páginas, a coleção demonstra detalhes do Egito Antigo [não o separando do continente africano, como faz outras publicações], também não deixa de informar acerca de diversas civilizações e dinastias. Sem contar que é outra visão sobre o tráfico de negros que foram escravizados, a colonização europeia e a “independência” dos diversos países. Não tem como fazer uma relação apurada entre o passado e o presente, no que diz respeito ao racismo, sem olhar para os volumes dessa importante publicação.

Os aparelhamentos que contribuíram para justificação dessa desumanidade nos iludiram, insistiram em tirar o foco daquilo que realmente importa. A “história oficial” exalta quem mais matou, feriu, hostilizou. Demoramos muito tempo para dar um fim nessa atrocidade. Um projeto que contava com estruturas imensas, e que ainda conta, simplesmente por estarmos vivendo a sofisticação do racismo, atualmente. Já olhou para os resultados de nossa sociedade atual?

Antes de ir avante, acho necessário fazer a ressalva de que quem hoje vive, e as pessoas no futuro, têm mais mecanismos para enfrentar o peso de algo com tão amplo significado, coisa que antes não tinha praticamente como se defender.

Os negros são os mais atingidos pelo desemprego, pela mortalidade infantil e juvenil, comunidades quilombolas são queimadas por jagunços. Já me perguntaram se isso ainda acontece. Temos notícias todos os dias desses assuntos.

Será que sou pessimista ao fazer tal declaração, da sofisticação do racismo? Creio que não, porque, por mais que eu queira ver uma realidade de um modo mais justo, e outras muitas pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo também queiram, o racismo ainda vai demorar muito tempo para ser superado. Sinto na pele e é bem provável que as futuras gerações também o sintam. A diferença, repito, é que terão mais mecanismos para se defenderem deste câncer.

Da mesma forma que terão mais alicerce para tratar com mais astúcia este mal, também terão de enfrentar modos mais sofisticados de discriminação racial. Quanto mais a tecnologia avança, ainda mais cruel se torna a atuação dos racistas. Quando digo isso não quero afirmar que a culpa é do desenvolvimento científico e dos recursos tecnológicos. A questão é quem detém o poder para usar estas ferramentas. Já parou para pensar nisso?

A globalização – fenômeno que tenho olhado com muita cautela – mostra-se como algo que chamo de globocolonização. É apenas um modo mais sutil de proliferar formas de dominação. Creio que ultrapassamos a era capitalista e estamos vivendo algo ainda mais tenebroso.

Muitos podem pensar que estou desmerecendo as conquistas realizadas até hoje que vai contra este modelo de expansão, que na verdade é dominação disfarçada. Não é isso que quero dizer.

Muitos foram os avanços. Grande parte da realidade brasileira, com relação à falta de igualdade de oportunidades para brancos e negros, mudou. A insistência em olhar para educação infantil, fundamental, ensino médio e para o ensino superior, fez com que mais negros, principalmente, vissem com qualidade, a forma como foram e são tratados pela política segregacionista implantada no Brasil de forma velada, mas ao mesmo tempo descarada em seus resultados com relação à desigualdade social, que pode ser caracterizada como desigualdade racial e étnica. As futuras gerações vão colher frutos destas realizações.

No Brasil, muitos homens e mulheres lutam pela liberdade com a mesma garra, ou até mais apurada, de Nelson Mandela. A desvantagem é que suas ideias e ações são descaracterizadas por grupos que não têm nenhum interesse em ver negros libertos do racismo através destas contribuições. Agora, do jeito que as coisas vão indo, sinceramente, não precisa ser um especialista para perceber que se não adotarmos políticas eficazes para combater o racismo, nós e as futuras gerações continuaremos sofrendo com a falta de liberdade em desfrutar mínimas condições de dignidade humana.

Um Brasil mais justo depende, quase que exclusivamente, dos próximos governos, as pequenas e grandes empresas, os meios de comunicação, a sociedade civil organizada, os movimentos sociais etc., ouvirem a voz do Movimento Negro, para saber ao menos, claro que na prática e não apenas na teoria, a grande contribuição que o ecoar da voz negra pode dar ao povo brasileiro. Quero salientar, acima de tudo, que esta voz nasceu na África e não na Europa, como estamos acostumados a aceitar sem pensar.

PS – Quero recomendar um texto meu, Cabelos Grisalhos, que fala de uma menina que raspou sua própria pele no asfalto, uma criança, para ver se conseguia deixar de ser negra. Depois de ser hostilizada em um ambiente dito educacional, aos prantos, sentindo a dor de ser tratada como nada, buscou resolver o problema tentando deixar de ser quem ela é ou acreditava que fosse pela imagem negativa que demonstraram dela mesma.

Fonte: JeanMello.Org

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