Solano Trindade: a negra voz

por Thaís Nascimento

solano

Recifense, nascido há 105 anos, é sempre lembrado por seu engajamento político sobre a questão racial e as desigualdades

O poeta Francisco Solano Trindade (1908-74), cujo os 105 anos de nascimento se comemorou no último dia 24, foi desses artistas que não se destacou em apenas um aspecto. Além do talento com as palavras, foi também teatrólogo, ator, cineasta, folclorista e artista plástico. E era por meio da arte que manifestava sua luta.

Como grande defensor da arte como instrumento de valorização do povo, o trabalho de Solano Trindade é sempre lembrado por trazer em seus versos a ancestralidade negra, a luta contra o racismo e também por difundir a cultura afro-brasileira. Uma poesia que dava voz aos negros oprimidos, sejam aqueles escravizados no passado ou os que sofrem a marginalização e o preconceito no presente.

Trindade foi o primeiro poeta brasileiro a integrar-se plenamente na poética negritudinista, àquela em que os versos são dedicados à cultura e resistência negra. Em uma de suas poesias, declamou:“Sou negro/Meus avós foram queimados pelo sol da África / Minh`alma recebeu o batismo dos tambores/ Atabaques, gongôs e agogôs/ Contaram-me que meus avós / Vieram de Loanda / Como mercadoria de baixo preço / Plantaram cana pro senhor de engenho novo / e fundaram o primeiro Maracatu”, dizia na primeira estrofe. E na quinta: “Na minh’alma ficou / O samba /O batuque/ O bamboleio/ E o desejo de libertação…”.

Em sua juventude, no início dos anos 30, Trindade começou a militar pela causa do povo negro e nesta mesma época começou a compor poemas afro-brasileiros. Participou da idealização do I e do II Congresso Afro-Brasileiro realizados em 1934 e em 1937, respectivamente, em Recife e em Salvador. Foi o criador da Frente Negra de Pernambuco e do Centro de Cultura Afro-Brasileira.

O talento de Solano Trindade já ecoava pelo país quando os versos de “Tem Gente com Fome” de seu primeiro livro “Poemas de uma Vida Simples”, publicado em 1944, levaram o poeta para a cadeia por ordem do presidente Eurico Gaspar Dutra. Um ano depois da prisão, funda no Rio de Janeiro, com Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro (TEN) cuja estreia ocorreu em maio daquele ano com a peça “O Imperador Jones”, que provocou polêmica e protestos da classe média.

A valorização da cultura popular sempre esteve presente nos desejos de Trindade. Ao criar o Teatro Popular Brasileiro, o artista formou um grupo no qual o elenco era formado por operários, domésticas, comerciários e estudantes e que apresentava espetáculos de batuques, congadas, caboclinhos, capoeira, coco e outras manifestações populares. Com grupo, o artista levou a arte e música brasileira a vários países da Europa.

De volta ao Brasil, em 1961, Solano é convidado para apresentar-se no Embu. Apaixona-se pela cidade, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico, sendo um dos precursores do movimento que a transformaria em Embu das Artes, pois sua a atividade na região faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, aumentando o fluxo turístico.

Atualmente, Embu das Artes é sede do Teatro Popular Solano Trindade em homenagem ao poeta. O local é considerado um dos pontos culturais mais importantes da cidade por preservar e promover a cultura popular brasileira por meio do teatro, dança, música, artes plásticas e literatura.

Solano Trindade faleceu no Rio de Janeiro, em 1974, e deixou uma peça teatral não publicada, “Malungo”, em co-autoria com Miécio Tati, sobre os Quilombos.

Memórias 

Citado como um dos mais importantes artistas negros, Solano Trindade foi muito elogiado no Brasil e no exterior por seu trabalho. Abdias do Nascimento, escritor e político negro disse sobre o amigo: “Entre os raros poetas negros que conheço neste Brasil mestiço, Solano Trindade é o que melhor me satisfaz. Ele é negro, sente como negro, e como tal cantou as dores, as alegrias e as aspirações literárias do afro-brasileiro.”

Fonte: CEERT

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